​“O produtor rural não é o vilão da história. Ele é o herói”. Assim Daniel Carrara, diretor-geral do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural  (Senar), iniciou sua participação no bate-papo do ABMRA Ideia Café, iniciativa da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro. Ele destacou que o setor enfrenta problemas recorrentes com a comunicação, e que mostrar a importância do setor produtivo é um grande desafio.

“Lá atrás, nossa comunicação era voltada para o produtor rural como forma de nivelar o seu conhecimento, devido à dificuldade de acesso a informações que beneficiavam o seu negócio. Aqui temos um exemplo de comunicação que deu certo junto ao campo. No entanto, do outro lado, nós perdemos uma oportunidade importante, porque não demorou para a imagem negativa do agronegócio ganhar força. A partir daí, o produtor passou a ser visto como ‘o cara do veneno que desmata e não gosta do pequeno’. A repercussão foi global e o Brasil se tornou o grande vilão da preservação dos recursos naturais. Desde então, estamos passamos por um processo de reformatação e nossa estratégia de comunicação precisa combater esses preconceitos e, principalmente, mostrar o nosso forte papel como produtores de alimentos para atender à demanda interna e global. Todos comemos, certo? É do campo que vem a comida”.

Esse foi o ponto de partida para a criação do manifesto “Alimentar é construir o futuro”, que reúne várias iniciativas do Sistema CNA/Senar para reformular a identidade que o Agro carrega. A campanha visa criar elo entre a população e o Agro tendo o alimento como fio condutor.

Um dos pilares da estratégia de comunicação é a consolidação de argumentos, com números e mensagens-chave para preparar formadores de opinião do setor produtivo. A ação conta com a capacitação de líderes de entidades de classe entre outros para entrevistas à imprensa e reuniões relacionadas ao Agro.

O plano inclui veiculação de campanhas de mídia, humanizando a atividade e trazendo a imagem do produtor rural para o foco, mostrando o seu trabalho para a produção de alimentos. “Não adianta mostrar  a imagem de uma colheitadeira. Assim, não vamos conseguir nos comunicar com quem está em casa.  Muitas vezes, esse público nunca pisou em uma plantação de soja ou viu uma lavoura de algodão. Assim, direcionamos nossa comunicação para envolver e sensibilizar a população. Os resultados começam a aparecer porque as pessoas acima dos 30, 40 anos têm alguma vivência com o campo, seja relacionado a familiares ou de quando iam para o sítio na infância”, afirma o diretor geral do Senar.

Já para as novas gerações, a estratégia adotada é diferente. Criamos planos voltados aos formadores de opinião da nossa área, com artistas que entendem nossa mensagem. Caso eles queiram falar sobre o campo, disponibilizamos informações corretas e atualizadas”.

Carrara informa que o Senar mantém serviço de monitoramento sobre o que de mais importante é publicado a respeito do agro brasileiro ao redor do mundo. A partir desse material, é possível verificar as informações disseminadas e, caso seja necessário, esclarecer. “Durante a pandemia fomos vistos como a solução, fornecendo alimentos. Com o pós-pandemia, a sociedade volta a nos ver com maus olhos. Esse monitoramento não é para combater o que falam, mas para buscar e entregar informações corretas à população e combater esse preconceito”, afirma.

Ricardo Nicodemos, presidente da ABMRA, deu ênfase à ideia de ver o produtor rural como o herói sem capa, colocando no mesmo patamar de professores com essa classificação, mostrando a necessidade de seu trabalho, humanizando a atividade e aproximando a sociedade por meio dos alimentos. “Os produtores, assim como os profissionais da educação, são vitais para o crescimento do Brasil. É preciso trazer o produtor para o foco da comunicação, tal qual é feito com o alimento“, enfatiza o presidente da ABMRA.

Presente à conversa, a editora da revista Forbes Agro, Vera Ondei, questionou como é trabalhar com a classe média rural, visto que no meio urbano essa categoria tem grande peso em decisões de política pública, enquanto no campo há dificuldade de enxergar essa faixa. Daniel Carrara assinala que é necessário impulsionar as políticas públicas para o crescimento da classe média rural e de sua participação no PIB do agronegócio nacional. “O Agro é muito diverso. Levar a informação correta é a melhor estratégia e temos que traduzir a mensagem para fortalecer toda a cadeia produtiva”, finaliza o diretor geral do Senar.