Por Carlos Alberto da Silva (Carlão da Publique), diretor do Grupo Publique e diretor de produção agropecuária da Associação brasileira de Marketing Rural e Agronegócio (ABMRA)

 

As formas e ferramentas do mundo digital não são novas. Pelo contrário, estão vivas na web há um bom tempo. Internet, WhatsApp, Skype, redes sociais diversas, medição, dados on-line, tags, lands, sites, zoom etc. Milhões de pessoas estão conectadas e conhecem esses mecanismos. Mas a maioria só falava disso. Usava pouco ou nada. Principalmente, para o trabalho.

Mais de 90% das pessoas que usam o universo digital fazem isto para o universo particular, não corporativo. Com o confinamento social, ficaram sem saída e foram obrigadas a migrar para esse universo. E digo que a maioria das pessoas ainda não seguiu este caminho com determinação. As empresas sempre foram muito tímidas para fazer a migração do universo físico para o virtual nos processos decisórios, que envolvem investimento, análise de opções, recrutamento, distribuição de tarefas etc. Por medo e receio.

A pandemia é uma oportunidade importante. Mas, talvez, não seja ainda eficiente, principalmente em sociedades latinas e católicas como a brasileira. Onde o ser humano é muito reticente quando o assunto é número, medição, gestão por resultados, performance. Mas, se dermos um passo que seja adiante, vai ser transformador. Deixar o colaborador da empresa livre para criar, agir, pensar e resolver. Independentemente de espaços físicos, contato humano, olhares, apertos de mão, almoços, reuniões, que são momentos sociais bacanas, mas não exclusivos.

Essa crise toda está a nos oferecer o empurrão que faltava para mergulharmos de vez no enorme oceano da comunicação digital. Tenho certeza de que poderá nos trazer maior criatividade para lidar com um novo normal que se avizinha. Não tenho a menor dúvida de que o futuro pós-crise nos desobrigará de participar de reuniões chatas, imensas e improdutivas. Que iremos economizar uma enorme quantidade de tempo e, portanto, de dinheiro em traslados desnecessários, viagens longas para desfechos curtos e improdutivos.

Por outro, aposto que voltaremos ao necessário e importante convívio social com nossos clientes, amigos e familiares. Eu acredito, inclusive, que as horas dedicadas a essas atividades serão muito mais intensas, embora possam ser menos frequentes, especialmente no lado profissional. Valerá muito mais a qualidade e a intensidade do que a quantidade. Quem sabe não estejamos construindo uma sociedade mais intensa e íntegra, com foco total no aqui e no agora.

A comunicação exercerá papel cada vez mais relevante nesse processo de engajamento do ser humano com seus pares. Nunca foi tão fácil participar de uma enxurrada de webinars, entrevistas, cursos, aulas, palestras e afins, sem termos de sair do conforto do nosso sofá.

Mas aqui vem o próximo desafio. O desafio da escolha. De separar o joio do trigo. Um desafio para o qual só o conhecimento e a boa leitura poderão ser o guia seguro e confortável.

Todo material de qualidade sempre foi atraente para interlocutores e parceiros competentes, proativos, produtivos. No fundo, não importa o meio de comunicação. Pode ser o sinal de fumaça dos índios, o grito de selvageria dos pré-históricos, o telefone fixo ou a Internet. O que importa é a importância e a qualidade do conteúdo. Se o meio for instantâneo, não presencial como o digital, melhor ainda. No futuro, será holográfico e sensorial. Porém, vai continuar sendo primordial a qualidade e a veracidade da mensagem.

Mentira e verdade fazem parte da história antropológica da raça humana. Com o passar dos tempos e o avanço da tecnologia, ficou mais fácil determinar o que é verdade. Mas também ficou mais simples mentir e disseminar a mentira.

Nos últimos oito mil anos, o ser humano evoluiu demais. Tratou a água, o esgoto, inventou a penicilina e o microscópio, fez vacinas, pisou na Lua, mandou uma nave para fora do Sistema Solar. Fez isso convivendo com verdades e mentiras. E é inegável que a verdade triunfa bem mais do que a mentira. Por isso, quem ganhará força no futuro não serão os produtores de conteúdo, apesar de eu nem saber o que isto significa. A sociedade inteira produz conteúdo. Informativo, religioso, político, econômico, científico, esportivo, cultural etc. Quem vai vencer? Eu espero que sejam os produtores de conteúdo ‘com conteúdo’. Sem adjetivismos. Seja quem for.

Às empresas, cumpre um papel fundamental, que é o de veicular sistematicamente informação crível, honesta, verdadeira. Em toda a complexidade que o conceito exige, apontando e corrigindo os erros da veiculação de mentiras. Se a empresa não faz Comunicação, com crise ou sem crise, ela não existe. Não representa, não se mostra, não faz conexão com a sociedade, com os clientes, com o mundo. Toda boa Comunicação é aquela que Comunica. A que leva a informação desejada pelo emitente ao receptor adequado, buscado, procurado. Com o mínimo de ruído possível.

Todas as sociedades modernas, mais ricas, democráticas e justas, sabem que a população de seus países vive mais, com mais qualidade, assistência, ingerindo alimentos saudáveis e completos em termos de nutrição. Mas, só sabem. Inconscientemente. Precisam ser avisadas e revisadas sobre o fato. Precisam ser melhor “comunicadas”. Sempre lembrando do sentido da palavra Comunicação. “Tornar comum”. Falta um longo trabalho da cadeia produtiva em “tornar comum” à sociedade que ela come bem, vive cada vez mais, morre cada vez mais tarde, tem cada vez mais saúde, por causa do avanço da medicina e da segurança alimentar propiciada pelos produtores rurais e pela indústria de transformação do setor. São estas duas áreas, produção e indústria, que precisam comunicar melhor o que fazem de bom.

Então, lá vamos nós de volta para o futuro da Comunicação.