O governo de Jair Bolsonaro (sem partido) compartilhou nesta quarta-feira (28), nas redes sociais, foto de um homem armado em alusão ao Dia do Agricultor.

A imagem foi publicada no perfil da Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social), da Presidência da República.

“Hoje homenageamos os agricultores brasileiros, trabalhadores que não pararam durante a crise da Covid-19 e garantiram a comida na mesa de milhões de pessoas no Brasil e ao redor do mundo”, afirma a publicação do governo.

A montagem foi divulgada na página SecomVc, página oficial do governo usada para defender bandeiras de Bolsonaro e rebater críticas ao presidente.

A imagem foi criticada nas redes sociais por promover o uso de armas em vez de utilizar símbolos do campo. Horas depois, a foto foi deletada.

Usuários do Twitter chegaram a apontar que a fotografia foi retirada do site iStock, que cobraria R$ 45 pelo uso da figura de seu banco de dados.

Já pela manhã desta quarta, usuários do Twitter comentavam que o governo estaria homenageando o “dia do jagunço” e não os agricultores. A maioria das publicações reforçava que a imagem do homem do campo armado é antiquada e não representa o profissional do agronegócio brasileiro no século 21.

Presidente da Abag (Associação Brasileira do Agronegócio) Marcello Brito disse que a publicação envergonha o setor.

“Esse post não representa os agricultores brasileiros. Não andamos com armas no ombro, mas com o suor de quem trabalha honestamente de sol a sol. Essa publicação envergonha o setor, as mulheres e homens do campo e o Brasil. Absurdo”, escreveu ele no Twitter.

Segundo Jorge Espanha, presidente da Abmra (Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio), o setor deve ser reconhecido por saciar a fome, gerar empregos e fomentar a sustentabilidade.

“O Brasil é um dos maiores exportadores de alimentos do planeta, superando US$ 100 bilhões por ano. É essa a imagem que a Abmra contribui para transmitir para a sociedade e que tem a participação direta do agricultor”, diz o executivo.

A Aprosoja (Associação dos Produtores de Soja) não quis se pronunciar sobre o caso, por entender que se trata de uma questão do governo. A CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) também não havia se pronunciado.

A Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão) disse que não comentaria o assunto, por não se tratar de uma política agrícola.

Ciro Gomes (PDT) qualificou a foto como “a simbologia do ódio e da morte em todos os espaços”. “Pelo amor de Deus, onde o governo Bolsonaro quer chegar? Veja que foto absurda postaram, hoje, supostamente para homenagear o Dia do Agricultor. É a simbologia do ódio e da morte em todos os espaços. Basta!”, escreveu em sua conta no Twitter.

O deputado Ivan Valente (PSOL-SP) escreveu que hoje é dia do agricultor, e “não da milícia rural”.

“Trocar enxada por arma é a cara de um governo que nada produz”, disse.

A deputada Natália Bonavides (PT-RN) escreveu na mesma rede social que “pistolagem é coisa de milícia”. “As agricultoras e os agricultores de nosso país são vítimas dessa prática criminosa e assassina”, disse a deputada.

O advogado criminalista Augusto de Arruda Botelho comentou no Twitter que é uma distopia retratar um agricultor com uma arma.

“Algumas vezes, eu ainda não acredito que chegamos a isso”, escreveu.

Na noite desta quarta, a Secom divulgou uma nota em que diz que a imagem do homem armado era uma “referência à segurança do campo”, mas que ela “deu margem a interpretações fora do contexto”.

“O governo continuará adotando medidas que proporcionem mais tranquilidade e segurança em respeito ao agricultor e à sua família”, disse a Secom no comunicado.

O presidente Bolsonaro defende armar a população. Em 2019, ele sancionou lei que ampliou a permissão de posse de arma a toda a extensão de uma propriedade rural.

As medidas de flexibilização no acesso às armas fizeram com que o Brasil atingisse, em dezembro de 2020, a marca de 2.077.126 armas legais particulares, 1 para cada 100 brasileiros, como mostrou a Folha.

Os dados fazem parte do anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que compilou os números de registros de armas nos sistemas do Exército e da Polícia Federal.

A conta inclui armas legais registradas por cidadãos, por atiradores desportivos, caçadores e colecionadores e armas registradas em nome de empresas, além das armas de uso pessoal de policiais, bombeiros e militares. Não foram contabilizadas as armas que pertencem a instituições do poder público, que somam 359,8 mil.

Comparados aos de anos anteriores, os números apontam para uma escalada no acesso e na circulação de armas particulares no Brasil nos últimos anos.

No Sinarm, sistema de registro de armas da Polícia Federal, o número de armas registradas dobrou entre 2017 e 2020. Eram 638 mil registros de armas ativos em 2017, número que cresceu para pouco mais de 1 milhão em 2019 e atingiu a marca de 1,2 milhão em 2020.

APOIADORES DO GOVERNO

Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fizeram homenagens mais tradicionais à categoria nesta quarta. O deputado estadual Frederico D’Avila (PSL-SP) divulgou uma foto em meio a uma plantação e destacou que o setor “impulsiona a economia”e representa mais de 30% das exportações. Uma imagem do presidente o acompanha na publicação.

“Homenageio o produtor brasileiro pelo seu dia. Temos muito a comemorar, pois o Agronegócio impulsiona a economia nacional e representa mais de 30% das exportações brasileiras. Parabéns agricultor, parabéns à família da Agricultura que produz o alimento que sustenta esse País!”, escreveu.

O empresário bolsonarista Luciano Hang fez sua própria homenagem: publicou um vídeo no qual mostra homens trabalhando em lavouras e destaca a importância do agronegócio para o PIB (Produto Interno Bruto).

Matéria da Folha de S.Paulo por Sheyla Santos Mateus Vargas Douglas Gavras